Via Doloris: O Black Metal guiado pela melodia no novo projeto do ex-Satyricon
- Maicon Leite

- 26 de fev.
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Gildas Le Pape pode não ser um nome muito conhecido no Brasil, mas é um músico que transita com naturalidade pelos bastidores do Metal extremo europeu, sendo frequentemente lembrado por sua atuação como guitarrista ao vivo do Satyricon entre 2008 e 2013. Antes disso, no entanto, ele já havia deixado suas impressões no underground com as demos da banda Morbid Rites, no início dos anos 2000.
Após um período afastado da música pesada, dedicando-se a explorar estilos distantes como o jazz e o swing, o músico francês decidiu retornar ao Black Metal. O resultado dessa repatriação criativa é o Via Doloris, um projeto no qual ele assume total controle — gravando vocais, guitarras, baixo e assinando a produção e a arte da capa —, expondo uma visão particular do gênero.
O álbum de estreia, “Guerre et Paix”, com lançamento agendado para 20 de março pela Season of Mist, deixa claro logo na primeira audição que não se trata de um disco pautado somente pela agressividade padrão do Black Metal. A "guerra" e a "paz" do título referem-se à condição humana e aos conflitos internos, distanciando-se de temáticas anticristãs ou bélicas convencionais. O álbum propõe uma sonoridade variada, onde a melodia funciona como o elemento central que dita a estrutura das composições.
Para colocar essa ideia em prática, Gildas contou com a participação de Frost (Satyricon, 1349) na bateria. A presença de Frost é importante, executando as linhas de bateria exatamente como foram compostas e pré-arranjadas por Gildas. Frost dá ao projeto uma performance de qualidade, porém totalmente a serviço da estrutura das faixas, mostrando versatilidade fora de sua zona de conforto habitual.
Sonoramente, “Guerre et Paix” se destaca pelo espaço que dá aos instrumentos. As guitarras assumem um papel condutor, guiando as harmonias com clareza, enquanto o baixo possui uma presença audível e fundamental — característica que muitas vezes acaba encoberta nas produções tradicionais de Black Metal. A faixa de abertura, "Communion", foca numa pegada rápida e agressiva, que agradará aqueles que esperam brutalidade. Na sequência, “Un Franc Soleil” pisa no acelerador, com momentos mais tranquilos e guitarras inspiradas. O single "For The Glory", já conhecido do público, sintetiza a proposta do disco, equilibrando arranjos de guitarra quase melancólicos com uma base rítmica ríspida. Em sua metade final, Gildas insere belos arranjos acústicos que contrastam com o caos.
E é exatamente isso que dá um toque especial ao álbum: a inserção sutil de elementos de música tradicional (Folk) da Bretanha (França) e da Noruega. Longe da abordagem festiva do Folk Metal, esses toques rústicos funcionam apenas como texturas de fundo, dando um toque extra na aura “antiga” da gravação. A longa e épica "Ultime Tourment", com cerca de dez minutos, explora diversos elementos e não cansa em nenhum momento. Na contramão da música de consumo imediato, há muita arte envolvida aqui, para ouvidos mais atentos a detalhes. O uso de três idiomas — francês, inglês e norueguês, com destaque para as duas partes de "Visdommens Vei", cantadas na língua escandinava — quebra a monotonia e dá um fôlego à interpretação vocal.
Ouça “For the Glory”:
“Guerre et Paix” passa longe de ser apenas mais um lançamento genérico. Gildas Le Pape deixa claro que domina as raízes do Black Metal, mas prefere rasgar a cartilha a segui-la cegamente. É um álbum que exige tempo e imersão, construído com inspiração e traduzido em composições absurdamente sólidas. O Via Doloris estreia com características musicais muito bem resolvidas e relança Gildas de volta ao cenário extremo com um trabalho de nível.
Confira também a entrevista que fizemos com Gildas Le Pape no link abaixo





