Entrevista: O retorno introspectivo de um veterano: Gildas Le Pape (ex-Satyricon) apresenta o Via Doloris
- Maicon Leite

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Photo: Linnea Syversen - @fotograflinneasyversenPara muitos fãs de Black Metal, o nome Gildas Le Pape remete imediatamente à era moderna do Satyricon, onde o guitarrista francês desempenhou um papel fundamental nos palcos e estúdios entre 2008 e 2013. Sua história, entretanto, tem início com o Morbid Rites, no ano de 2000, tendo lançado duas demos. E após anos dedicando-se a outros espectros musicais — que vão do jazz ao swing —, Gildas retorna ao Metal extremo, mas não para repetir fórmulas.
Com o projeto Via Doloris, ele apresenta uma visão singular e amadurecida do gênero. Seu álbum de estreia, "Guerre et Paix" - que será lançado pela Season of Mist em 20 de março -, foge da busca incessante por velocidade ou das caracteristias usuais do Black Metal. Em vez disso, a obra aposta na melodia como fio condutor de uma jornada emocional e filosófica, explorando a dualidade da condição humana.
Para dar vida a essa visão, o músico francês – residente na Noruega - recrutou ninguém menos que seu antigo companheiro de batalha, Frost (Satyricon, 1349), cuja bateria serve aqui a um propósito diferente: sustentar composições que fluem, onde guitarras "cantam" e letras trilingues (em francês, inglês e norueguês) dissecam batalhas internas.
Nesta entrevista exclusiva para o Metal no Papel, conversamos com o mentor do projeto sobre este retorno, a colaboração com Frost e a filosofia por trás de uma das obras mais instigantes do ano.
Metal no Papel - O nome da banda refere-se diretamente ao “Caminho do Sofrimento” (Via Doloris). No entanto, ao ouvir o álbum, não parece que o objetivo seja apenas chafurdar na dor, mas sim passar por ela. Como você encontrou esse equilíbrio para que a música soasse emocionalmente pesada e, ao mesmo tempo, transmitisse uma sensação de busca por algo maior — quase uma forma de redenção?
Gildas le Pape: O sofrimento não é um fim em si mesmo, mas é parte do nosso caminho. E eu realmente acho que a maioria de nós busca algo maior. Tentei converter tudo isso ao mesmo tempo. É preciso uma sintonia profunda consigo mesmo para chegar a esse ponto onde a arte encontra uma autoconsciência expandida. E acredito que consegui isso com “Guerre et Paix”.
Metal no Papel - Muitas pessoas te conhecem pelo seu trabalho com o Satyricon, mas você passou um bom tempo explorando outros estilos antes de retornar ao Metal extremo. O que fez você sentir que "agora é a hora" de voltar a esse gênero? E o que você trouxe dessas outras experiências musicais que ajudou a fazer o Via Doloris soar diferente das suas bandas anteriores?
Gildas le Pape: Eu realmente tive uma pausa da música extrema por alguns anos, e o retorno ao Metal foi inevitável, eu acho. Não calculei nada, simplesmente aconteceu. Fora isso, sou um músico bastante experiente em vários estilos e acho que é uma vantagem conhecer "mais música" do que "menos música". Tenho muita música na cabeça, então é uma questão de sintonizar na frequência certa para o projeto e deixar a correnteza te levar para onde for necessário.
Metal no Papel - Ter o Frost na bateria é sempre sinônimo de poder, mas vocês dois se conhecem há muitos anos. Como foi dirigir a performance dele para este projeto específico? Você pediu para ele abordar a bateria de forma diferente do que os fãs estão acostumados a ouvir no 1349 ou no Satyricon, para casar com sua visão mais melódica?
Gildas le Pape: Eu tinha feito demos onde a bateria estava programada, já bem arranjada e detalhada, antes de começar a colaboração com o Frost. Não sou exatamente um baterista exímio, mas sei como funciona. O Frost recebeu as demos e as partes de bateria do jeito que estavam, e aprendeu com todos os detalhes. Nenhuma batida de caixa aconteceu por acaso, se é que você me entende. Ele quase não mudou nada. Ele também admitiu que foi um desafio interessante tocar uma bateria que ele mesmo não tinha criado ou composto. Eu gosto muito de ouvi-lo tocar a "minha bateria"!
Metal no Papel - Hoje em dia, sinto que muitas bandas de Black Metal acabam focando demais na velocidade ou na estética visual e esquecem um pouco da estrutura da música. O seu som parece ir na contramão, dando bastante espaço para a melodia respirar. Você sente que essa atenção aos detalhes de composição está em falta na cena atual?
Gildas le Pape: Concordo. Os aspectos sonoros e visuais tornaram-se o elemento mais importante na música, o que são, por definição, camadas superficiais. Dá-se menos atenção às músicas de fato ou até mesmo aos riffs. Meu interesse principal na música é a melodia, mesmo as minimalistas, e o Via Doloris faz questão de restabelecer as melodias no centro do estilo.
Metal no Papel - O álbum transita entre francês, inglês e norueguês. Isso é algo que acontece naturalmente quando você está compondo? O que faz uma música "pedir" para ser cantada em francês, por exemplo? Você sente que sua interpretação vocal muda dependendo do idioma?
Gildas le Pape: Não acho que meus vocais mudem muito de um idioma para outro. Escrevi textos em várias línguas sem pensar em nenhuma música em particular e, numa fase posterior, comecei a ver qual música se encaixaria em qual texto. Algumas músicas definitivamente se adaptam melhor para serem cantadas em inglês. As mais "cativantes", eu diria. E “Visdommens Vei”, a última faixa do álbum, tinha que ser cantada em norueguês, isso seria óbvio de uma perspectiva musical, eu acho.
Metal no Papel - O título “Guerre et Paix” é um clássico, mas sugere extremos opostos. No contexto das letras e da atmosfera do álbum, essa “guerra” é mais sobre suas batalhas internas e pessoais, ou é uma observação do mundo e da violência da natureza que nos cerca?
Gildas le Pape: Acho que o Via Doloris é definitivamente mais sobre a condição humana do que sobre o mundo que nos cerca, mas o tema "Guerra e Paz" é muito universal e pode ser lido ou interpretado de várias maneiras. Até mesmo "Guerra" pode significar coisas muito diferentes de uma pessoa para outra.
Metal no Papel - Pode-se notar toques de Folk e uma atmosfera mais antiga nos arranjos, mas sem que o som se torne um “Folk Metal” caricato. Qual foi o processo de costurar essas influências mais rústicas e míticas na agressividade do Black Metal de forma tão sutil?
Gildas le Pape: Isso está correto, e obrigado pelo feedback. Sempre achei que as bandas que tocavam Metal tipo folk soavam horríveis, mas eu gosto de elementos da música tradicional, da minha região natal, a Bretanha (Nota do redator: França), ou da Noruega, por exemplo. Tentei misturar os elementos de uma forma musicalmente inteligente, em vez de gravar um riff com uma flauta ou um acordeão e dizer "ei, olhem pessoal, fiz uma ponte Folk!".
Metal no Papel - Você acabou assumindo quase tudo neste disco: produção, arte da capa, guitarras, baixo. Centralizar tudo isso foi uma necessidade para garantir que o som saísse exatamente como você imaginou na sua cabeça, ou é difícil para você delegar essas partes mais artísticas e pessoais?
Gildas le Pape: Foi uma necessidade, e é difícil delegar. Tenho a sorte de conseguir lidar com muitos aspectos sozinho, então por que não fazer isso para garantir que as coisas soem como planejado? Mas tenho certeza de que haverá mais espaço para colaboração no futuro, uma vez que a identidade do Via Doloris estiver firmada.
Confira ao vídeo de “For The Glory”:
Metal no Papel - No Black Metal, a guitarra muitas vezes serve para criar aquela 'parede de som' ou focar na velocidade. Mas neste álbum, parece que a guitarra está verdadeiramente 'cantando', conduzindo a música o tempo todo, quase como uma segunda voz. Como foi criar arranjos onde o instrumento tem tal destaque emocional sem perder o peso do Metal?
Gildas le Pape: Obrigado pelo elogio. Eu também acho que a guitarra é a verdadeira força motriz no Via Doloris, e não é surpresa, já que sou, antes de tudo, um guitarrista. Faço as coisas do meu jeito, a música está profundamente conectada ao meu coração e às minhas mãos. Muitos apenas "tocam por tocar", se é que me entende: aquele riff soa Metal? Bom o suficiente. Essa não é a minha abordagem. Quando escrevo música para o Via Doloris, há sempre uma intenção, uma dedicação total em seguir o caminho que criei. E eu realmente gastei um bom tempo para garantir que cada parte de guitarra expressasse exatamente o que eu queria, e soasse de acordo.
Ouça o single “For the Glory” no Spotify:
Metal no Papel - Geralmente, álbuns desse estilo vêm carregados de agressão ou tentam impor uma ideologia forte. “Guerre et Paix”, no entanto, passa uma sensação diferente — mais um convite para o ouvinte compartilhar aquela experiência, em vez de um confronto. Por que você quis que este trabalho soasse mais como uma jornada pessoal compartilhada do que uma espécie de “ataque”?
Gildas le Pape: Impor coisas não serve a nenhuma agenda construtiva. E isso já foi feito milhares de vezes. Com a maturidade vem a perspectiva e a apreciação de experiências introspectivas reais em vez de "ataques" superficiais, como você diz. Algumas pessoas sempre precisarão de confronto e ataques, e tudo bem, eu também consigo curtir isso. Mas acho que o Via Doloris está oferecendo algo para o que vem depois disso.
Acompanhe o projeto:









