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“The Dark Side of the Soul” do The Mist prova que o tempo é relativo (e que a espera valeu a pena)

  • Foto do escritor: Maicon Leite
    Maicon Leite
  • 19 de jan.
  • 3 min de leitura

Esperar três décadas por um álbum completo é um teste de fé para qualquer fã. Mas quando falamos da banda The Mist, uma das entidades mais singulares do Metal mineiro, a espera não foi apenas por música nova, mas pela continuação de um legado, iniciado lá na segunda metade da década de 1980, das cinzas do Mayhem, em meio à uma cena rica e efervescente.

 

Embora o EP “The Circle of the Crow” (2022) tenha servido como um aviso de que a banda estava de volta e pronta para seguir sua jornada, é agora, com “The Dark Side of the Soul (Anatomy of the Soul)”, que o ciclo realmente se fecha. Este é o primeiro full-length desde o hoje cultuado “Gottverlassen” (1995), chegando com a responsabilidade de honrar a história iniciada no clássico “The Hangman Tree” (1991). Aliás, “Gottverlassen” e o EP “...Ashes to Ashes, Dust to Dust...” (1993) merecem uma atenção por qualquer fã de Metal daquela década que se preze.

 

O álbum foi lançado mundialmente através da Alma Mater Records, empreitada capitaneada pelo vocalista Fernando Ribeiro, do Moonspell, com distribuição da BloodBlast, gravadora atrelada à Nuclear Blast Records.

 

A capa assinada pelo artista Michael Whelan (sim, ele mesmo, o mesmo que deu ao mundo obras de arte como “Arise”, “Cause of Death” e “Chaos A.D.”) já coloca o álbum em uma prateleira superior. A arte da capa prepara o terreno para as loucuras líricas que transbordam no disco e que abordam uma dissecação da fragilidade humana.

 

Sonoramente, a banda trilha caminhos próprios. Com produção de André Damien e mixagem do dinamarquês Tue Madsen (Born from Pain, Cataract, Ektomorf e Heaven Shall Burn), o som segue uma linha moderna, atual, mas respeita o passado do grupo. As guitarras de Edu Megale são cortantes, técnicas, mas cheias de feeling, evocando aquele Thrash meio “estranho” que o The Mist criou. A entrada de Lina Linassi (bateria - Age of Artemis, Dinnamarque Seawalker) e Wesley Ribeiro (baixo - ex-Drowned) deu um gás novo na cozinha. As linhas de bateria são criativas, cheia de contratempos que desafiam o ouvinte, mantendo o DNA progressivo e experimental da banda.

 

O conceito do álbum é brilhante. O folclórico Vladimir Korg divide as faixas como órgãos vitais (fígado, coração, cérebro, pulmões), criando um diálogo entre o corpo físico e os fantasmas da mente. Interessante esse modo de batizar os títulos das faixas: cada uma conta com sua origem antes do título propriamente dito. Estou desconfiado que essa inspiração toda que brota no disco é resultado de muitos cafés e pães de queijo em estúdio.

 

A abertura, com “The Curse of Life” (e que foge à regra dos títulos), abre o disco com uma agressividade latente, com Linassi moendo na bateria, enquanto Megale despeja riffs e solos inspirados. Na sequência, “(Embryo) - Anatomy of the Soul”  abre com um riff animal e gruda na cabeça com um refrão marcante. Os solos de guitarra são um destaque à parte. Direto do coração e indo fundo dentro da alma, "(Cuore) – The Dark Side of the Soul", é praticamente Death Metal. Dentre os demais destaques, temos a já conhecida "(Brain) – Geppetto's Song", uma crítica ácida à era digital e à nossa transformação em bonecos manipuláveis, com um refrão que cola na mente e um festival de riffs à tiracolo.

 

Confira "(Brain) – Geppetto's Song":

 

Fica até difícil elencar o que cada faixa apresenta, pois, o álbum é de uma riqueza absurda. Há momentos de “descanso”, como no início de “(Liver) - Killing My Imaginary Friends”, com um clima mais sombrio, mas logo a porradaria volta à tona. Confesso que num primeiro momento não me adaptei muito bem ao disco, mas após uma segunda audição, comecei a entender suas nuances e particularidades, e após uma terceira audição, ficou tudo muito claro. Que baita trabalho!


Confira o álbum do Spotify:

 

O The Mist voltou para provar que o tempo é relativo. 30 anos passaram voando...“The Dark Side of the Soul” é teatral e agressivo na medida certa e não soa como uma banda antiga tentando recapturar o que foi criado décadas atrás, mas sim como um coletivo de músicos criando algo para o futuro, dando uma espiada no passado e com um olhar no presente.

 


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