“Creatures II” do Creatures é a trilha sonora perfeita para um filme de terror cult oitentista
- Maicon Leite

- há 3 dias
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Historicamente, o Brasil exporta brutalidade. Quando o assunto é Metal em solo nacional, a balança pende, há décadas, para a hegemonia do Metal Extremo. Do Thrash ao Death, construímos uma reputação global baseada na velocidade e na agressividade, muitas vezes deixando o Heavy Metal Tradicional e o Hard Rock relegados a um segundo plano ou a nichos muito específicos. São raras as bandas neste segmento que atingiram um patamar mais elevado, como o Dr. Sin, por exemplo. É nadando contra essa correnteza que a banda curitibana Creatures se destaca, com o lançamento de seu segundo álbum, "Creatures II".
Para entender como “Creatures II” surgiu, é preciso olhar um pouco para as raízes da banda. O projeto nasceu em 2019, da mente do guitarrista Mateus Cantaleäno. Vindo de um background Thrash/Speed com o Murdeath, Mateus buscou, inicialmente, um refúgio criativo para riffs mais Hard/Heavy que remetiam à década de 1980. O álbum de estreia, homônimo, lançado em 2021, embora competente, soava como um projeto de estúdio, uma "banda de dois", com Mateus assumindo o instrumental e Bob Scienza nos vocais.
O cenário muda drasticamente em 2025. O Creatures deixou de ser um projeto para se tornar uma banda completa. A entrada de Ricke Nunes (baixo, Phantom Star) e Sidnei Dubiella (bateria, ex-Hell Gun) trouxe a pujança de uma "cozinha" real. Contudo, o grande diferencial desta nova fase atende pelo nome de Marc Brito. O vocalista, já conhecido pela sua banda Hellway Train, traz uma performance que eleva o patamar das composições, com um alcance e estilo que remete aos grandes frontmen do circuito de arenas, permitindo que a banda explore melodias que antes estariam fora de alcance. Além disso, ao vivo Marc Brito também é conhecido por uma performance intensa e 100% metálica. Ou seja, com um time desses, o resultado não poderia ser menos do que matador.
Lançado sob a chancela da prestigiada gravadora alemã High Roller Records — o que por si só já é um atestado de qualidade dentro da New Wave of Traditional Heavy Metal (NWOTHM) —, o álbum apresenta uma produção cristalina e orgânica, assinada por Cantaleäno e o produtor Arthur Migotto no Heavy Tron Studio.
A faixa instrumental de abertura, "Inferno", com ótimos dedilhados e melodias de guitarra, prepara o terreno para uma sonoridade que mescla Metal tradicional com uma pegada de Dokken e até de Scorpions. Músicas como a galopante "Night of the Ritual" (que refrão! E os “ôôô?) e a excelente "Devil in Disguise" mostram a banda na ponta dos cascos: os refrãos são ganchudos, feitos para serem cantados ao vivo, mas os riffs mantêm o peso metálico intacto. Aliás, os riffs são criados em profusão no decorrer dos 44 minutos do álbum. É como se Mateus Cantaleäno abrisse uma maleta de riffs e os despejasse com classe ao longo do trabalho. Há faixas mais Hard ou AOR, como preferir, ao lado de músicas com uma vibe mais pesada, nos moldes da NWOTHM, embora soe tudo muito homogêneo. Destaco ainda “Queen of Death” e “Path of the Night”.
Outro fator interessante e importante do álbum é o clima que ele traz daqueles filmes cult de terror da década de 1980, como “Hard Rock Zombies”, “Rocktober Blood”, “Rock 'n' Roll Nigthmare” (do folclórico vocalista canadense Thor), “Trick or Treat” ("Heavy Metal do Horror", do clássico personagem Sammi Curr e participações de Ozzy e Gene Simmons), “Paganini Horror”, dentre outros no mesmo naipe. Tal influência é sentida visualmente no vídeo clipe de “Beware the Creatures”, que carrega totalmente a aura destas películas. Aliás, se algum destes filmes fosse lançado hoje, as músicas e a performance do Creatures se encaixariam perfeitamente não só na trilha sonora, mas na participação do quarteto encenando qualquer pontinha dos filmes.
“Creatures II” carrega uma nostalgia genuína, capaz de contagiar até mesmo quem não viveu o auge do Hard ‘n’ Heavy oitentista. O destaque inusitado fica para a faixa bônus “Perfect Illusion” (Lady Gaga), uma prova de que qualquer música, nas mãos certas, vira um Metalzão dos bons. Em suma, é um álbum forjado com qualidade, inspiração e feito por quem realmente entende do riscado.
Ouça via Spotify:
E para coroar a boa receptividade do álbum, a banda foi escalada para tocar no festival Keep it True, na Alemanha, sendo a primeira banda brasileira a tocar no tradicional evento, que é o sonho de qualquer fã de Metal old school que se preze. O KIT será realizado nos dias 24 e 25 de abril, com um line-up de aquecimento no dia 23.
Assista ao video de “Beware the Creatures”:









