No Burning House em São Paulo, Graham Bonnet revisitou o passado e provou que ainda pode ser chamado de titã da música
- Filipe Moriarty

- 17 de ago.
- 4 min de leitura

Crédito das fotos: Dani Moreira - @danimoreirajrphotography
Existe uma pergunta particularmente idiota que volta e meia aparece quando um músico veterano sobe ao palco: “Ele ainda consegue?”
É uma pergunta que o Heavy Metal deveria ter aposentado há décadas. Graham Bonnet nasceu em 1947. Quando muita gente na plateia ainda estava descobrindo o que era uma guitarra elétrica, ele já estava gravando discos. Quando boa parte dos heróis do Metal estava construindo sua reputação, Bonnet já tinha passado por algumas das maiores bandas do planeta. Bonnet atravessou várias delas. Nascido na cidade em Skegness, na Inglaterra, Bonnet começou sua carreira ainda nos anos 1960, ganhou projeção com the Marbles e, depois de uma passagem pelo pop e por trabalhos comerciais, encontrou seu território definitivo no Hard Rock e no Heavy Metal. A partir daí, a lista fica quase absurda. Bonnet assumiu o Rainbow em Down to Earth, assumiu os vocais no Michael Schenker Group, em Assault Attack, e depois o Alcatrazz - um super grupo monstruoso, que tinha como integrante, Yngwie Malmsteen e Steve Vai fez 4 discos - Dangerous Games, Disturbing The Peace, No Parole from Rock 'n' Roll e Born Innoncent.
Aos 78 anos, existe obviamente uma diferença entre reproduzir exatamente exatamente com a mesma força os vocais de 1980 e manter a identidade de uma voz que atravessou quase seis décadas. Não há nostalgia domesticada aqui. Há um sujeito que ainda encara uma sequência de músicas que exige pulmão, potência, alcance e, sobretudo, personalidade. O que é muito impressionante, afinal - pois Bonnet ainda mostra poder!
O repertório escolhido para o show na Burning House em São Paulo praticamente funcionou como uma autobiografia.
O show começou com “Eyes of the World”, do Rainbow, imediatamente seguida por “All Night Long”. Dobradinha que levou os fãs, em sua maioria veteranos, ao êxtase.
O Show seguiu com “S.O.S.”, que trouxe seu álbum solo para o centro do palco, antes de “Love's No Friend” recolocar o Rainbow no radar. Depois veio “Night Games” - faixa titulo de seu disco solo.E então, temos uma pausa para descanso - o show seguiu rigorosamente pausas a cada 2 canções, devido a saude debilitada de Bonnet naquele momento. Nesta primeira, “Lazy”, do Deep Purple foi evocada pelo tecladista em seu solo de teclado. Um momento que funciona quase como uma pausa antes de o motor voltar a subir de giro. “God Blessed Video” veio em seguida, dando sequencia a “Imposter” e “Desert Song”. A última é especialmente significativa: volta ao Assault Attack, disco de 1982 do Michael Schenker Group, provavelmente um dos registros mais importantes da carreira de Bonnet fora do Rainbow. então vemos “Stand in Line”, representando Impellitteri. É nesse ponto que o show começa a parecer menos uma apresentação convencional e mais uma sessão espírita do Hard Rock dos anos 80, e quem incorpora todos os guitarristas ali - vivos e não vivos, é Pesinato. O cara é uma maquina! Emular os guitarristas que passaram pela carreira de Bonnet não é nada simples, Pesinato ainda tem espaço pra imprimir identidade nas canções nas quais tem autoria.

“Jet to Jet” veio logo depois do solo de bateria advindo da pausa programada. hÁ de se convir que Alcatrazz exige precisão, e Bonnet conseguiu segurar a onda em "Jet to Jet". Bonnet, em vez de suavizar a própria história, coloca essas músicas lado a lado como quem diz: foi isso que eu fiz. Agora vamos ver o que vocês conseguem fazer com isso.
“Since You've Been Gone” vem arrancando reações mais intensas do público, assim como “Into the Night” e
“Assault Attack” do MSG. Depois vem “Too Young to Die, Too Drunk to Live”, do Alcatrazz, pra botar tudo abaixo de vez. E finalmente “Lost in Hollywood” fecha a noite, novamente com Rainbow.
É difícil imaginar encerramento mais coerente. A estrutura do setlist é inteligente porque não transforma Bonnet em um artista de uma única época. Rainbow, carreira solo, Alcatrazz, MSG e Impellitteri aparecem como capítulos de uma mesma história. O mais interessante no show do Burning House não está simplesmente em constatar que Graham Bonnet ainda canta. Está em perceber o que significa continuar cantando.O Heavy Metal construiu sua mitologia em torno da juventude, da velocidade, da rebeldia e daquela ideia adolescente de que seus protagonistas seriam eternamente congelados em uma capa de disco. Só que a vida real não respeita capas de disco. O cabelo cai, as articulações reclamam, a voz muda, amigos morrem e algumas bandas viram nota de rodapé. Mas Bonnet continua e continua carregando músicas que foram gravadas quando o mundo era outro, quando MTV ainda era uma emissora musical, quando guitarristas eram tratados como deuses e quando o Heavy Metal estava descobrindo até onde poderia chegar.
Isso torna sua presença no palco particularmente interessante. O tempo passando diante de uma máquina que se recusa a desligar.

SETLIST:
Eyes of the World (Rainbow cover)
All Night Long (Rainbow cover)
Love's No Friend (Rainbow cover)
Makin' Love (Rainbow cover)
Since You Been Gone (Russ Ballard cover / Rainbow)
Keyboard Solo / Lazy (Deep Purple cover)
Imposter
S.O.S.
Desert Song (Michael Schenker Group cover)
Jet to Jet (Alcatrazz cover)
Night Games
Into the Night
Assault Attack (Michael Schenker Group cover)
Lost in Hollywood (Rainbow cover)





