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Entrevista: Samy Elbanna comenta mudanças sonoras, carreira e o futuro do Lost Society

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    Metal no Papel
  • há 58 minutos
  • 16 min de leitura

O líder do Lost Society comenta as mudanças musicais do grupo, influências e os planos para o futuro da banda finlandesa 

Desde o seu surgimento na cena Thrash Metal finlandesa, o LOST SOCIETY tem provado que não tem medo de arriscar e quebrar as próprias regras. Após a transição sonora marcante observada a partir dos álbuns "No Absolution" e "If The Sky Came Down", a banda liderada por Samy Elbanna atinge um novo patamar de maturidade e experimentação com o seu mais recente trabalho, "Hell Is A State Of Mind".

 

Fugindo da perfeição tão comum nas produções modernas e apostando em uma sonoridade orgânica registrada no lendário Finnvox Studios, o grupo conseguiu criar um álbum grandioso que mistura de forma natural Thrash Metal, arranjos orquestrais, refrãos pop e o trechos Black Metal, sem perder a essência furiosa que sempre foi a sua marca registrada.

 

Em um bate-papo sincero com o Metal no Papel, o vocalista e guitarrista Samy Elbanna abriu o jogo sobre esse momento criativo. Ele falou sobre como acidentes de estúdio moldaram o novo disco, a importância de ser vulnerável nas letras, o luto pela perda trágica de seus pais e como a troca de energia com os fãs nas rodas de mosh ganhou um significado emocional muito mais profundo.

 

Confira a entrevista completa a seguir:

 

Metal no Papel - De "No Absolution", passando por "If The Sky Came Down", vocês se afastaram das suas identidades iniciais do Thrash Metal para explorar novos territórios. Agora com "Hell Is A State Of Mind", o objetivo parece ser consolidar de vez essa assinatura moderna. Como tem sido essa transição internamente para você e, especificamente, como você vê a recepção dos fãs antigos e tradicionais do LOST SOCIETY em comparação com o novo público que este álbum busca alcançar?

 

Samy Elbanna: Bem, sabe, eu acho que o nosso ponto forte com a banda sempre foi, desde o início, o fato de gostarmos de nos manter fiéis a nós mesmos e às nossas próprias necessidades musicais. E o que quero dizer com isso é que a base para tudo o que escrevemos tem que ser algo que nós mesmos amemos. E, sabe, desde sermos aqueles garotos de 15 anos ouvindo Punk Rock e Thrash Metal e coisas assim, até hoje, lançando "Hell Is A State Of Mind", muitas coisas mudaram, mas acho que a essência de tudo é que ainda amamos todo o material que compomos, e não podemos realmente escrever a partir do ponto de vista de outra pessoa, exceto o nosso. E, assim, acho que é por isso que a música sempre vai mudar de um jeito ou de outro, porque não somos as mesmas pessoas que éramos quando tínhamos 15 anos. Também somos pessoas diferentes de quem éramos aos 26 ou 27. Eu mesmo tenho 30 anos agora. E à medida que exploramos o mundo, que observamos coisas diferentes, sinto que nossa música sempre vai crescer, e vamos amadurecer como compositores, basicamente conseguindo canalizar essa força de diferentes influências e trazer isso para a nossa música. Isso sempre vai ser muito importante para nós, para podermos usar a música plenamente como uma válvula de escape para os nossos sentimentos pessoais. Obviamente, percebemos muito cedo que nunca conseguiríamos escrever algo que agradasse a todos, mas acho que o nosso segredo, e o que percebemos desde o início, foi que isso nunca deveria ser o nosso ponto de partida. Nunca deveria ser o motivo pelo qual fazemos as coisas para agradar os outros. Sabe, se alguém se conecta com a música que fazemos, é lindo. É uma coisa incrível de se ouvir, mas nunca será o mais importante para nós. Como o Rick Rubin já disse tantas vezes, mesmo soando duro, é o mantra de que "o público vem por último". E sendo um artista, acho que é algo que todos deveriam guardar bem perto de si mesmos e apenas se lembrar de que você é a razão pela qual faz as coisas. Tudo tem que soar bem para você antes de tentar vender para qualquer outra pessoa.

 

Metal no Papel - E comentando sobre essa evolução, ela não é apenas sua, mas também da própria banda, certo?

 

Samy Elbanna: Sim, com certeza, porque, veja bem, a questão conosco é que, embora houvessem certas bandas que nos uniram, a nossa influência não se limitava apenas a Slayer ou Megadeth. O Arto, nosso guitarrista, tem o KISS como sua maior influência. A minha, obviamente, como já disse tantas vezes, vem do mundo do Iron Maiden e do Judas Priest. Nosso baixista adorava Black Metal, e nosso baterista vinha de uma pegada Hair Metal. Então acho que certas coisas nos uniram, mas parecia natural no começo buscar aquele tipo de música muito rápida e agressiva, porque foi o que aconteceu quando pegamos nossos instrumentos. Mas isso mudou e evoluiu tanto ao longo dos anos, e não é algo que poderíamos forçar em ninguém nesta banda, sabe? Todo mundo ama o que fazemos e acho que, se não amassem, não estaríamos mais juntos nessa situação.

 

Metal no Papel - É fascinante saber que o álbum nasceu quase por acidente. "Blood Diamond" começou como um esboço sobre uma batida de hip-hop, e de repente a introdução de cordas transformou tudo. Como foi perceber naquele momento que esse acidente orquestral definiria o DNA do resto do disco?

 

Samy Elbanna: Sabe, acho que isso mostra como você pode planejar algo nos mínimos detalhes, mas sempre haverá aquele 1% de coisas que acontecem por erro ou acidente. E acho que, como humanos, isso nos define. É sempre aquele pequeno acidente divino que pode definir algo lindo. E para nós, foi o que aconteceu com este disco, e com essa música em especial. Eu diria que todo disco sempre teve uma ou duas músicas que surgiram de um simples erro. Pode ser de um amplificador que queima, ou uma guitarra que arrebenta uma corda, porque você sempre aprende a se adaptar à situação e às diferentes circunstâncias em que é jogado. Acho que, como humanos, prosperamos ao estar em situações com as quais não estamos familiarizados. Pelo menos nós sim, e adoramos estar nesse tipo de território onde você não tem certeza do que pode acontecer a seguir. Nós apenas abraçamos a mudança e abraçamos o que o universo claramente jogou sobre nós com "Blood Diamond", e isso começou a sair do controle e, de repente, senti que as músicas realmente começaram a se escrever sozinhas em algum momento, porque ficou muito claro o que queríamos fazer.

 

Metal no Papel - E é interessante ver como algo inesperado pode ser espetacular no futuro, certo?

 

Samy Elbanna: Ah, honestamente, essa é a questão. Gosto de usar como referência o disco anterior que fizemos, "If The Sky Came Down", porque, obviamente, o mesmo mantra do qual acabamos de falar se aplica àquele disco, mas de uma forma muito diferente. Como muitas pessoas sabem, aquele álbum foi escrito a partir de um lugar de muita angústia e amargura em que eu estava, um lugar muito sombrio, e obviamente eu não havia planejado que aquilo acontecesse, mas no fim, a decisão que eu essencialmente tomei na minha cabeça de que aquele seria o último disco que eu escreveria, e que seria o fim do meu tempo neste planeta, basicamente ajudou a gerar um álbum que, no fim das contas, salvou a minha vida. E acho que isso mostra que existem coisas muito loucas nas quais nós não temos controle sobre tudo, e às vezes pode resultar em algo muito bonito saindo de uma situação tão difícil.

 

Metal no Papel - Você brincou que este é um álbum de "seções C", parafraseando "No Longer Human" como exemplo, onde em vez de pontes tradicionais, vocês criaram seções que funcionam quase como pequenas músicas dentro da música principal. O que motivou essa quebra das estruturas padrão de composição e que nova dinâmica isso trouxe para a banda?

 

Samy Elbanna: Bem, antes de tudo, adorei que você tenha referenciado "No Longer Human", porque na minha opinião é uma das seções mais assombrosamente lindas que já escrevemos para uma música. Eu sinto que todas as músicas estavam prontas para algo assim acontecer, porque, como eu disse tantas vezes, sinto que somos o produto do quão maduros estamos como compositores no momento em que escrevemos. E sinto que, exatamente neste momento, fomos capazes de canalizar nossas profundas influências em ter seções assim em nossa música, porque era algo que as músicas ou os álbuns anteriores não nos davam a liberdade de fazer, a música não precisava daquilo, não estava pronta para algo tão dramático. Mas, como tínhamos a história deste disco, tínhamos tudo tão bem planejado que reconhecemos: "ei, essa pode ser uma oportunidade perfeita para começar a criar algo assim". Músicas como "Seventh Son Of A Seventh Son" do Iron Maiden têm uma seção C grandiosa. Qualquer coisa do "Hey Stoopid", disco do Alice Cooper, tem estruturas muito intrincadas, o que não é fácil de fazer como compositor, mas sinto que finalmente nos encontramos em uma situação em que estávamos prontos para fazer algo do tipo. Honestamente, acho que isso provou o nosso ponto de que você pode criar uma música dentro de uma música, uma história dentro de uma história, o que eu acho muito lindo, mas sempre apresenta seus próprios desafios. Tem que ser parecido o suficiente para fazer sentido estar na música, mas diferente o suficiente para causar impacto no ouvinte.

 

Metal no Papel - Este foi um momento especial, notamos isso, e tínhamos que mencionar, porque foi algo muito, muito evidente na música de vocês desta vez.

 

Samy Elbanna: Isso é incrível. Fico muito feliz que essas coisas realmente se conectem. Porque eu sinto que vem de uma intenção tão pura. Não acho possível planejar algo assim, simplesmente acontece, e quando essas situações acontecem e acabam se conectando tão bem com o ouvinte, nós nos consideramos as pessoas mais sortudas da Terra.

 

Metal no Papel - Vocês gravaram no lendário Finnvox Studios, buscando uma escala de produção comparável ao Nightwish numa era de edições perfeitas e simuladores digitais. Vocês optaram por amplificadores reais e bateria natural. Por que foi crucial para a identidade deste álbum evitar a perfeição digital e apostar nessa abordagem humana e crua?

 

Samy Elbanna: Acho que o motivo honesto é porque preferimos esse mundo sonoro. Sempre amamos uma abordagem mais orgânica em qualquer álbum, mas eu diria que, se você ouvir as músicas deste disco, elas vêm de uma emoção humana tão pura, e é um tema tão universal sobre o qual falamos muito, que sinto que isso seria ofuscado se tudo soasse meio robótico, porque é uma emoção muito humana que queremos transmitir às pessoas. Mas acho que, no geral, é também porque todos nós fomos criados ouvindo discos com sonoridade muito autêntica, sabe, desde os primeiros discos da New Wave of British Heavy Metal, até Kiss, Zeppelin, Jimi Hendrix; em todos esses discos você consegue ouvir um ser humano tocando o seu instrumento. E eu não sou o maior fã do que está acontecendo no Metalcore moderno, onde os engenheiros de som e as gravações estão fazendo o máximo para soar o mais robótico possível, perdendo aquele toque humano, que eu acho que é a parte mais crucial em qualquer forma de arte.

 

Metal no Papel - E é muito bom ter esse som orgânico, nós amamos músicas com essa sonoridade, e isso tem a ver com a percepção auditiva, porque não é robótico, e você consegue sentir o lado humano cruzando e soando através dos amplificadores e da música. Não apenas ao vivo no palco, mas também através dos amplificadores de vocês, através dos lugares onde vocês ouvem música, certo?

 

Samy Elbanna: 100%, 100%, porque eu sempre sinto que, sabe, quando você está tocando um instrumento, sempre haverá pequenas imperfeições. Ninguém está 100% perfeito em cada batida. Sempre haverá essas pequenas variáveis. E eu acho que isso é o que faz de um ser humano um ser humano, e é por isso que sempre me identifiquei muito mais com esse mundo sonoro do que com aquele super cravado onde tudo soa perfeito. Não acho que o heavy Metal deva soar perfeito, porque se trata de rebeldia, anarquia e ir contra o que tudo o mais está acontecendo no momento, e sinto que essas emoções humanas cruas transparecem muito melhor quando você deixa essas imperfeições permanecerem na música.

 

Metal no Papel - Sim, e isso vai conversar muito mais com você no seu dia a dia.

 

Samy Elbanna: Exatamente.

 

Metal no Papel - O álbum apresenta uma grandiosidade cinematográfica com a Babelsberg Film Orchestra. O grande desafio agora é levar isso para o palco. Como vocês planejam adaptar esses arranjos complexos para shows ao vivo sem perder a energia crua e direta que sempre foi a marca registrada do LOST SOCIETY?

 

Samy Elbanna: Bem, acho que isso remonta a quando estávamos escrevendo essas músicas, que para nós o mais importante era que, mesmo tendo toda a orquestra, os sintetizadores e todas essas camadas, a base de tudo sempre teriam que ser nós quatro. Têm que ser duas guitarras, um baixo, bateria e os vocais. Escrevemos o disco sabendo que esses são os elementos que as pessoas precisam levar consigo, mesmo se todas as outras coisas fossem retiradas da música, tem que ser a banda no centro de tudo. Conseguimos reunir todos esses elementos extras da orquestra e coisas do tipo por cima disso para construir um pacote coeso em cima do produto que já estava pronto, que é a banda. Sinto que isso nos ajuda agora que vamos sair em turnê, porque as músicas funcionam sem a orquestra, mas soam ainda melhores com ela. Obviamente não estamos em uma situação em que podemos levar 40 pessoas em turnê conosco para tocar violinos no palco, então teremos que usar ferramentas e abordagens modernas para tê-los tocando conosco, mas ainda assim, o principal é sempre a banda, a banda tocando com guitarras distorcidas, aqueles riffs principais, o baterista tocando batidas massivas, o baixista com seu timbre absurdo; isso é o que a música ao vivo é para mim quando se fala de uma banda de Metal. Tudo o que vem por cima é apenas uma adição legal, na minha opinião.

 

Metal no Papel - O single "Is This What You Wanted?" é descrito como uma das melhores músicas que vocês já criaram, mostrando um lado muito vulnerável em relação a sacrifícios. A letra toca na sensação agridoce de alcançar um sonho enquanto se perdem momentos importantes da vida. Houve algum momento específico na estrada ou na sua vida nos últimos anos que desencadeou essa reflexão e inspirou essa faixa?

 

Samy Elbanna: Ah, mil por cento. Sem entrar em detalhes muito profundos sobre isso, mas, nos últimos anos, eu perdi os meus dois pais e, na maior parte do tempo, eu estava absolutamente em outro lugar, estava em turnê, gravando este disco, e sinto que esses são momentos para os quais você vai olhar para trás pelo resto da sua vida e sempre se perguntar se havia algo a mais que poderia ter feito. A música foi escrita sob o ponto de vista de que eu sei que não há outra coisa que eu pudesse fazer além de música. É um sentimento que tenho desde o momento em que acordo até o momento em que vou dormir, fico pensando em como posso levar esta banda para outro ouvinte. O que posso fazer? O que posso fazer para melhorar um pouco? É algo que você não consegue evitar, está muito embutido no seu sistema. Mas, sabe, é um sacrifício, são coisas que você tem que fazer, ou que acaba se pegando fazendo porque ama muito a sua forma de arte. É trágico, mas no fim das contas, sinto que o que você faz sempre será algo que as pessoas próximas a você também apoiam, e elas sempre vão querer que você dê o seu melhor naquilo que faz, e isso meio que me ajuda a passar por esses momentos em que penso sobre o que falo nesta música.

 

Metal no Papel - E notamos que isso ficou super evidente, não apenas nesta faixa, mas na música de vocês. Você tenta se reconstruir neste álbum, e isso é muito evidente nas letras e é algo que se destaca para nós. Fica muito claro que você faz tudo pela arte, e este é um álbum que reflete muito isso.

 

Samy Elbanna: É incrível ouvir que isso é transmitido, e concordo que você definitivamente pode sentir isso na nossa música sempre. Há esse senso de ambição toda vez que fazemos qualquer coisa, de que queremos conscientemente criar algo que resista ao teste do tempo, que soe como se tivéssemos tentado o nosso máximo para colocar a nossa própria alma na música. Sabe, soa tão clichê, mas o fato é que, se não fôssemos capazes de fazer música e colocar nós mesmos nela, estaríamos perdidos, não conseguiríamos fazer nada. Então, a música é sempre isso. Tirar energia dela é tão bom quanto dar energia para ela. Ouvir que ela se conecta com as pessoas é simplesmente a coisa mais incrível.

 

Metal no Papel - Isso é incrível e reconfortante, de certa forma.

 

Samy Elbanna: É... quero dizer, é tudo o que podemos fazer. É a vida que conhecemos desde crianças e eu espero continuar por muito mais tempo.

 

Metal no Papel - Em "Dead People Scare Me", você inverte a lógica dos filmes de terror, sugerindo que os vivos são mais assustadores que os mortos. Como essa crítica à pressão social e às instituições que nos moldam se encaixa no conceito maior do álbum de que o inferno é um estado de espírito, "Hell Is A State Of Mind"?

 

Samy Elbanna: Essa é uma ótima pergunta. Escrevi a música a partir daquele ponto de vista de quando você é criança e está crescendo: você é criado com a ideia de que filmes de terror e o conceito de zumbis e pessoas possuídas, essas são as coisas das quais você deveria ter medo. Mas dia após dia abrindo qualquer canal de notícias e lendo sobre as merdas que estão acontecendo ao redor do mundo, não há nada que uma pessoa morta possa fazer que seja mais aterrorizante do que tudo o que você lê sobre uma pessoa no poder decidindo por todos o que deve acontecer. A música foi escrita puramente sob esse ponto de vista, mas honestamente, ela se traduz e vai além disso, no sentido de que cabe a nós pensarmos se é o inferno, o paraíso ou a Terra em que vivemos, se permitimos que esses demônios caminhem pela Terra da maneira que fazem e somos impotentes diante disso. Não podemos evitar. O disco também fala sobre tantas coisas que eu reconheço que estão erradas no mundo, as quais nós, especialmente como músicos, infelizmente não podemos resolver. Mas há muitas coisas que podemos fazer, e acho que são até mesmo essas pequenas coisas que fazem uma diferença enorme. Sabe, você ser respeitoso com o que está ao seu redor, ser ecologicamente correto, consumir certas coisas e não outras, isso faz uma enorme diferença para o mundo todo. E "Dead People Scare Me" é apenas um testamento do próprio nome LOST SOCIETY, de que reconhecemos que o mundo não é aquele lugar lindo e ensolarado que nos foi vendido quando crianças.


Confira o vídeo de "Kill The Light"

 

Metal no Papel - Desde que você começou a se abrir mais sobre lutas mentais e sentimentos pessoais em suas letras, a interação com os fãs mudou? Você sente que o público hoje se aproxima de você de forma diferente, talvez buscando mais uma conexão emocional do que apenas a energia da roda de mosh?

 

Samy Elbanna: Eu adoro o fato de que, depois dos dois últimos discos, definitivamente mudou de forma muito positiva. Sinto que talvez o fato de eu ser capaz de ser muito vulnerável nas letras que escrevo, e nas entrevistas, mostre às pessoas que não há problema nenhum em se aproximar de mim e falar sobre essas coisas; isso é totalmente aceitável, sempre foi. Fico muito feliz pelo fato de que, se eu puder fazer com que pelo menos uma pessoa que está passando por algo parecido se abra, seja mais honesta a respeito e comece a lidar com isso, então terei feito mais do que jamais poderia esperar. A música sempre foi minha válvula de escape para lidar com as emoções, e agora que temos as redes sociais onde também podemos conversar e nos conectar, e claro, ao vivo também, é incrível. Eu sempre vou guardar com carinho todas as conversas que já tive com fãs dizendo que algo que falei teve impacto neles. Seja ajudando-os no dia a dia ou a superar alguma dificuldade, isso sempre vai ser incrível. Definitivamente mudou para melhor, mas isso não quer dizer que você não possa simplesmente vir ao nosso show e enlouquecer na roda de mosh, isso nunca vai mudar. Tem algo para todo mundo, e acho isso muito legal.

 

Metal no Papel - É interessante que isso ainda seja uma conexão com os fãs, e que você pode externar esse sentimento até mesmo nas rodas de mosh, certo?

 

Samy Elbanna: Exatamente, porque a música, e especialmente o tipo de música que fazemos neste mundo do Metal em que vivemos, é muito fácil de fazer com que as pessoas de fora olhem e achem que é tudo sobre raiva, agressividade e coisas do tipo, mas isso não poderia estar mais longe da verdade. Sempre foi sobre se libertar da negatividade e neutralizar isso apenas com a sensação de estar unido com toda essa grande família ao seu redor. Você pode assistir a um show sem conhecer ninguém ali, mas de repente se torna parte dessa grande entidade unida, e durante aqueles 90 minutos de show vocês são uma grande família. Eu acho que esses são alguns dos momentos mais puros que se pode ter no mundo.

 

Metal no Papel - Para encerrar esta entrevista. A faixa-título, "Hell Is A State Of Mind", que você escreveu em parte enquanto estava com 39 graus de febre, parece resumir a ambição da banda. Ela planta um refrão com apelo pop, passagens inspiradas em Sibelius e até momentos de Black Metal. Qual foi o maior desafio em equilibrar influências tão opostas para que a música soasse orgânica, em vez de apenas uma colagem de estilos?

 

Samy Elbanna: Acho que o principal ao combinar tantos elementos de lugares diferentes é que tem que parecer natural para você. Acho que esse é o tema principal que digo a todos que me perguntam, por curiosidade, por que misturamos tantas coisas; e é sempre porque o tema subjacente é que isso vem de dentro de nós, vem de um sentimento de que é isso que queremos fazer. Porque se fôssemos escrever uma música conscientemente e dizer: "ei, queremos que essa parte seja Black Metal, isso deve ser ópera, isso pop, e isso rap", não vai funcionar se a ambição for fazer algo assim. Mas se vier puramente da perspectiva da composição, de você pensar "ei, eu tenho essa ideia, e mais essa", sempre vai soar como se tudo fosse parte de uma mesma música. Obviamente, funciona com as mesmas regras de qualquer música, você tem que ser muito crítico. Eu fui abençoado por ter o Jonas Parkkonen comigo em cada etapa do caminho quando escrevíamos juntos, e funcionamos como os maiores críticos um do outro. Se algo não funciona, a gente diz: "ei, isso é uma merda, temos que nos livrar disso e substituir por outra coisa". Mas sinto que temos muita liberdade para tentar coisas porque nós ouvimos todas as coisas que trazemos para dentro. Eu amo escutar, por exemplo, "Swan Lake" do Tchaikovsky, escuto Dimmu Borgir, Lady Gaga e um pouco de Nine Inch Nails. E na minha cabeça, tudo isso é parte do mesmo grande universo musical em que vivemos, e eu não gosto de rotular as coisas. Eu sou da opinião de que, se soa bem, vai ser bom, e se não soar bem, simplesmente não é para mim, mas ainda assim eu aprecio.

 

Metal no Papel - É super interessante ver que vocês conseguiram juntar tantos estilos de forma tão orgânica e intencional. Conseguimos escutar isso, e é incrível ver isso agora que você falou. E deveria ser mais público o fato de vocês terem tantos estilos organicamente, tornando tudo uma experiência definitiva na hora de ouvir a música de vocês.

 

Samy Elbanna: Isso é incrível. Muito obrigado, realmente significa muito. Espera, eu até pesquisei no Google isso. Muito obrigado.

 

Samy Elbanna: Muito obrigado, muito obrigado, eu realmente aprecio isso, e me diverti bastante.

 

Metal no Papel - Obrigado da minha parte, pelo seu tempo.

 

Samy Elbanna: Muito obrigado. Foi ótimo te ver. Cara, espero te ver muito em breve. Tudo de bom.

 

Metal no Papel - Eu também. Tchau tchau.

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